INTERPRETANDO O RDW EM MEDICINA VETERINÁRIA

Introdução

A anemia pode ser definida como a diminuição da concentração sanguínea de hemácias, hemoglobina e/ou volume globular (VG) de um animal. Entretanto, apenas constatar a existência da anemia representa uma avaliação superficial da condição fisiopatológica do paciente.

A análise de parâmetros como o volume corpuscular médio (VCM), a concentração de hemoglobina corpuscular média (CHCM), a concentração de reticulócitos, características hematoscópicas e o RDW permitem classificar o processo anêmico e auxiliar na determinação da sua causa, prognóstico e alternativas terapêuticas. A literatura relacionada com hematologia veterinária relata amplamente a existência de três tipos de classificações básicas para as anemias. As anemias podem ser classificadas de acordo com as alterações apresentadas por seus índices eritrocitários em macrocíticas, normocíticas, microcíticas, hipocrômicas e normocrômicas. Também poderemos classificar as anemias de acordo com os mecanismos patofisiológicos de formação da anemia. Desta forma as anemias podem ser hemolíticas, hemorrágicas ou hipoproliferativas. Por último, classificamos as anemias de acordo com a existência de resposta medular em regenerativas ou arregenerativas. A utilização do RDW juntamente com outros parâmetros hematológicos para analisar o eritrograma de um animal representa uma maneira eficiente de enquadrar a anemia dentro destas classificações.

VCM

O VCM é um índice eritrocitário responsável por informar o volume médio de cada eritrócito. Conforme a anemia vai se instaurando, a medula óssea começa a receber o estímulo da eritropoietina secretada em maior quantidade pelo rim para produzir e liberar mais células eritroides na corrente sanguínea na tentativa de reestabelecer a concentração sanguínea de hemácias dentro do intervalo de referência. Durante este processo ocorre a liberação de células eritroides mais jovens, ou imaturas, na corrente sanguínea, chamadas de reticulócitos. Os reticulócitos apresentam volume celular maior comparado a uma hemácia adulta e, por este motivo, quando começam a atingir uma concentração significativa na corrente sanguínea, ocorre um consequente aumento no VCM. Quando o VCM assume valores acima do intervalo de referencia definido para a espécie nós definimos estas anemia como macrocítica. A reticulocitose não é a única causa de macrocitose, porém quando observada em um animal anêmico sugere a existência de um processo regenerativo medular eritroide ativo ou prévio. Entretanto a reticulocitose é considerada o achado confirmatório de existência de resposta medular e pode ser aferida precisamente através da mensuração de sua concentração sérica ou altamente sugerida através da observação de policromasia na hematoscopia. Além da macrocitose, outros parâmetros podem sugerir a existência de resposta medular são presença de corpúsculos de howelljolly, hipocromia, metarrubricitose e RDW aumentado. O VCM também pode alterar-se para baixo quando uma população eritocitária é formada predominantemente por células eritroides microcíticas ou com volume celular reduzido. As anemias microcíticas costumam ser causadas pelo desenvolvimento de uma deficiência de ferro que, em cães e gatos adultos, normalmente é causada por hemorragias crônicas.

 

Anisocitose

A anisocitose (Figura 1) é uma alteração morfológica celular observada através da microscopia óptica em esfregaço sanguíneo, ou hematoscopia. É caracterizada pela diferença de diâmetro celular e pode ser quantificada em discreta, moderada e intensa ou em cruzes (1+,2+ e 3+). É esperado que quando hemácias de diferentes tamanhos comecem a compor a população eritroide em concentrações mais expressivas seja possível observar a presença de anisocitose na hematoscopia. Quanto maior a concentração destas células com volume alterado na concentração sanguínea, maior será grau de anisocitose observado.

 

 

 

 

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Figura 1: Anisocitose moderada em um esfregaço de sangue de cão

RDW

O RDW é a sigla para a expressão em inglês “red cell distribuition width” que, em tradução direta para o português, significa amplitude de distribuição eritrocitária. É um parâmetro que visa quantificar a heterogeneidade do volume celular eritrocitário presente em uma amostra, ou traduzir em números contínuos o grau de anisocitose eritrocitária presente em uma amostra de sangue animal. Esta ferramenta diagnóstica representa o coeficiente de variação da curva de histograma do volume eritrocitário e é calculada através da razão entre o desvio padrão desta curva pelo VCM (ou média exibida pela curva) da amostra, conforme fica demonstrado pela fórmula e figura a seguir.

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Histograma da distribuição dos diferentes volumes eritrocitários presentes na amostra de sangue analisada. O RDW é proporcional à largura da curva destacada na figura.
Fonte: Adaptado de Thrall (2007)

Desta forma, quando o RDW apresenta valores acima do intervalo de referencia podemos imaginar que exista um número aumentado de hemácias de diferentes volumes, ou tamanhos de circulação. Estas hemácias de tamanho alterado podem ser microcíticas, macrocíticas ou um conjunto dos dois tipos de hemácias, dependendo do tipo de processo formador da anemia a que o animal está submetido.
Também podemos esperar que, possivelmente este número de hemácias com volume alterado ainda não seja suficiente para deslocar o valor do VCM para cima ou para baixo do intervalo de referencia e, por este motivo, o RDW é considerado um parâmetro mais sensível ou precoce para detectar as variações de volume celular existentes em uma amostra de sangue decorrentes de reticulocitose ou deficiência de ferro.
Caso o tipo de hemácia predominante seja o macrocítico podemos suspeitar da existência de um processo regenerativo medular frente à anemia e caso seja microcítico podemos suspeitar de deficiência de ferro. Entretanto, para que possamos realizar este tipo de interpretação devemos associar a avaliação do RDW com a avaliação de outros parâmetros como o VCM. Presença de anemia associado a RDW dentro do intervalo de referencia sugere anemia arregenerativa.
Para que a melhor interpretação diagnóstica seja obtida, a avaliação do RDW nunca deve ser feita de maneira isolada à avaliação dos outros parâmetros hematológicos.

DR. LUIZ EDUARDO RISTOW
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MV. Mestre em Medicina Veterinária UFMG
CRMV-SP 5540 V
CRMV-MG 3708